Tecnocracia
O manual de eleição digital para o fascista moderno chegar ao poder
Jul 16, 2020 · 43 min
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Ouviu o Tecnocracia e veio aqui em busca dos links citados?


Poucas semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, um dos candidatos, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), anunciou que havia registrado seu plano de governo em uma blockchain, a tecnologia por trás do bitcoin. No site da campanha, já fora do ar, mas ainda disponível na Wayback Machine, o comunicado oficial explicava que o registro na blockchain era uma forma de garantir que as propostas, “constantemente modificadas para a manipulação de eleitores”, chegariam a eles na íntegra. Eleitores em dúvida sobre as “teorias criadas pela rede de desinformação do candidato opositor” poderiam, em tese, conferir se era mentira ou não.

Tecnicamente, blockchain é uma rede pública de blocos de informações organizados em uma grande corrente (logo, o nome blockchain) em que todos podem registrar e consultar informações, o que torna a tecnologia uma espécie de livro-razão contábil público — por isso que seu potencial crescimento colocaria em risco um tipo de negócio muito popular e lucrativo no Brasil por dar fé que tal documento é real, os cartórios.

A mistura entre política e tecnologia é antiga e sempre produziu casos curiosos, principalmente pela profunda falta de conhecimento da classe política. Nos Estados Unidos, tornou-se célebre a explicação que o senador Ted Stevens deu da internet: “a internet não é um grande caminhão. É uma série de tubos”. Até hoje a expressão “series of tubes” é usada em inglês quando se quer fazer piada sobre o funcionamento da internet. Mas, honestamente, eu não lembro de uma proposta tão desconectada da realidade como essa da campanha do Haddad. Vista de forma retroativa, é incrivelmente ingênuo, para dizer o mínimo, acreditar que o registro de uma proposta de governo em blockchain, uma tecnologia que a imensa maioria das pessoas que trabalham com tecnologia não sabe explicar direito além de falar que “é usada pelo bitcoin”, seria suficiente para resolver o problema de desinformação.

Sem surpresas, a notícia passou quase batida. Para escrever esse roteiro, tive dificuldades de achar veículos que não dedicados exclusivamente a bitcoin que publicaram a história. É impressionante que, em 2018, um marqueteiro de um partido relevante na discussão política brasileira, um partido que governou o Brasil por 13,5 dos últimos 17 anos, tenha sugerido algo tão inócuo, tão irrelevante. Se a maioria das pessoas que trabalha no mercado de tecnologia não faz ideia do que seja blockchain, imagina quem está fora dessa bolha, gente que só tem contato direto com tecnologia pelo smartphone. Pense em todas as pessoas ao seu redor que já vieram tirar as dúvidas mais simples sobre produtos tecnológicos.

O projeto fica ainda pior se considerarmos que, do outro lado do certame, o outro candidato tinha uma estratégia criada anos antes que entendia muito melhor a forma como o brasileiro usava/usa tecnologia e a explorava com métodos não só questionáveis como criminosos com um único objetivo, que foi atingido: vencer a eleição. Só uma ponta dessa estratégia estava clara em outubro de 2018, quando dezenas de milhões de brasileiros foram às urnas e elegeram Jair Bolsonaro, o melhor amigo da milícia, para o Palácio do Planalto. No último ano e meio, a manta que cobria os detalhes da estratégia digital usada por ele para ser eleito presidente foi sendo tirada. Aos poucos, a imprensa, a Justiça, pesquisadores e as empresas de tecnologia foram dando as peças que nos permitem entender a estratégia de comunicação digital e qual foi o papel, ainda que passivo, que a Big Tech teve em seu sucesso. “Ah, pelo menos o Haddad tinha um plano de governo, não um PowerPoint delirante”, você vai argumentar. Justo, concordo com você. O plano de governo do Bolsonaro é inacreditável: só platitudes e frases de efeito, nenhum plano realmente. Mas o principal aqui é: em 2018, o que menos importou foi o plano de governo.

O que eu vou fazer nesse episódio do Tecnocracia é juntar todas as peças já disponíveis para que a gente tenha uma visão mais completa de como Jair Bolsonaro usou a internet para virar presidente do Brasil. O Tecnocracia é um podcast que foge do “tecno-otimismo” e explora as consequências nefastas da tecnologia na nossa vida, como, por exemplo, como a conivência desinteressada das grandes plataformas de internet foi explorada por um deputado do baixo clero com indícios de proximidade a milícias do Rio de Janeiro para se tornar o chefe da segunda maior democracia do Ocidente. Eu sou o Guilherme Felitti.

Ao montar as pecinhas, a gente consegue dividir a estratégia digital que colocou no comando do país o sujeito mais despreparado do Brasil para lidar com uma pandemia em alguns grupos. O primeiro recorte é o da diferença entre produção e distribuição. Existe um uma sobreposição (Luciana Gimenez lamenta ao fundo por eu não ter usado overlap) entre ambas determinado pela natureza da plataforma: o WhatsApp, por exemplo, é ótimo para distribuir conteúdo criado em outras plataformas. O Twitter é bom em ambos. Faremos essa distinção conforme os casos aparecem. Essa vai ser a divisão principal: cada plataforma vai ter seu próprio bloco para depois amarrarmos lá na frente, pois existem semelhanças nos seus usos que sugerem ou comprovam uma coordenação. Serão elas: WhatsApp, Facebook, Twitter e YouTube. Já que os três primeiros obedecem a uma trajetória mais ou menos semelhante, vamos começar por aí. Nesse primeiro time, o capitão é claramente o WhatsApp — presente em 99% dos smartphones do Brasil, segundo pesquisa da Qualibest, o app é o principal pilar do bolsonarismo digital.

A máquina do ódio

Dois mil e dezessete foi um ano fundamental na estratégia digital do então deputado federal jair Bolsonaro. Sua produção legislativa nos 27 anos em que ocupou uma vaga na Câmara dos Deputados é incrivelmente parca: 170 projetos de lei propostos, 2 aprovados, sendo um deles o da “pílula do câncer”, que Dilma sancionou por populismo. Se sua vida está boa e interessante demais, você pode ler no site da Câmara os projetos propostos por esse democrata com propostas como, por exemplo, impedir o uso de nome social para travestis e transexuais. Claro, ele não é homofóbico, é delírio da minha cabeça (em áudio é bom destacar quando a gente é irônico, né?). Em 2017, de um lado ele apresentou dois projetos de lei que versavam diretamente sobre internet: o PL 6944/2017, que alterava a lei nº 12.965, “que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil, para vedar a oferta de pacotes com franquias limitadas de dados”; e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 347/2017, “para conferir apenas ao Supremo Tribunal Federal a suspensão de aplicativos de troca de informações via internet”. O jornalista Leandro Beguoci chamou atenção para essa “coincidência” em 2018.

O que o Bolsonaro tentava resolver com o PL e a PEC? Historicamente, o Brasil tem muitos casos em que a Justiça tirou plataformas inteiras do ar quando havia algum crime cometido nelas. Foi assim em 2007, com o bloqueio do YouTube no Brasil graças ao vídeo da Daniela Cicarelli transando na praia ou, em 2008, quando a Justiça Eleitoral queria tirar o Twitter do ar após descobrir perfis falsos, mas acabou tirando do ar um blog chamado Twitter Brasil. Tem que tocar ao fundo a vinheta dos Trapalhões sempre que esse caso do Twitter for relembrado. Nesses dois casos, juízes pelo Brasil que entenderam que, já que tem crime ali, fecha tudo. Queima a casa para se livrar do rato, como diria o Black Alien. Ao apresentar a PEC 347, Bolsonaro tentava limitar essa ação: os milhares de juízes pelo Brasil não poderiam mais, com uma canetada, tirar um serviço do ar. Isso ficaria restrito à instância mais alta da Justiça brasileira, que é o Supremo Tribunal Federal. Ironicamente, três anos depois, já eleito, o mesmo Bolsonaro não trabalharia mais para dar, mas para tentar tirar poder do STF. Como falei: é um democrata.

O PL 6944 segue a mesma toada. Ao propor que o governo poderia interferir num negócio privado para proibir operadoras de estipular franquias no consumo de dados móveis, o objetivo era dar uma forma legal para que o brasileiro ficasse cada vez mais conectado. Hoje a gente entende o porquê. Para o plano dar certo, havia dois tipos de empresas privadas no caminho: as operadoras e as donas dos apps. O projeto de lei resolvia a primeira questão, já que, na época da proposição do projeto, o WhatsApp tinha regras muito frouxas para o envio de mensagens em massa e o reencaminhamento de mensagens. Vamos lembrar: em fevereiro de 2016, o WhatsApp aumentou o limite de participantes em um grupo de 100 para 256. Até o primeiro semestre de 2018, o reencaminhamento de mensagens era ilimitado. Em julho de 2018, o WhatsApp limitou o número para 20 e começa a mostrar na mensagem quando ela foi reenviada1. Nesta altura, o plano dos Bolsonaro já estava a pleno vapor. Uma dor de cabeça, sem dúvidas, mas nada que implodisse a estratégia. Principalmente porque as ações mais enérgicas do WhatsApp para mitigar o problema da desinformação foram tomadas só em janeiro de 2019, com Bolsonaro já empossado — o app limitou ainda mais reencaminhamento, dessa vez para 5 contatos ou grupos2.

Tudo que falamos aqui trata do WhatsApp como um canal. Só que faltava o conteúdo que seria enviado por esses canais. O que a gente não sabia durante as eleições é que as propostas não foram atos isolados do então deputado. A repórter Juliana Dal Piva mostrou, em reportagem publicada em junho no jornal O Globo, que Bolsonaro e seu filho Carlos começaram também em 2017 a se aproximar de “jovens na casa dos 20 anos, criadores de páginas de paródias e personagens políticos no Facebook”. Os Bolsonaro descobriram páginas de memes de sucesso que exploravam política e convidaram seus criadores para reuniões presenciais no Rio de Janeiro a partir de 2017, com o objetivo de contratá-los e discutir uma estratégia de comunicação tendo em vista a eleição dali a um ano e meio. “O primeiro encontro presencial ocorreu no sábado, 11 de março de 2017, no salão de festas do prédio de Flávio, na Barra da Tijuca. O próprio Carlos registrou o momento no Instagram no dia seguinte: ‘Reunião sábado à noite, com alguns representantes de diversos grupos, com o objetivo de endireitar o Brasil (AM, CE, PE, SP, RJ, MG, PA, PB, PR)’. Quem esteve na reunião relata que, já pensando na eleição de 2018, a família discutiu a organização das páginas e a criação de grupos no WhatsApp e introduziu a estratégia sobre ataques a adversários. Segundo um dos que participaram da reunião, a produção de memes e ataques era parte da estratégia: obter uma estrutura de comunicação que pudesse ser operada diretamente, de ponta a ponta”.

Entre os presentes nessa primeira reunião, estão alguns nomes que até hoje fazem parte do entorno dos Bolsonaro, sejam eles figuras públicas, como os eleitos deputados federal Carlo Jordy e estadual Gil Diniz (da página Carteiro Reaça), ou eminências pardas, como José Mateus Sales Gomes (criador da página Bolsonaro Zuero) e Tércio Arnaud Thomaz (da página Bolsonaro Opressor). A contratação dos dois últimos aconteceu em 2017, mas Bolsonaro já conhecia o conteúdo da página Bolsonaro Zuero, pelo menos, desde 2014, descobriu O Globo.

Hoje, José Mateus, Tércio Arnaud e um terceiro, Mateus Matos Diniz, fazem parte do chamado “gabinete do ódio”, divisão no terceiro andar do Palácio do Planalto, muito próxima do gabinete presidencial, em que uma equipe coordenada por Carlos Bolsonaro planeja e executa estratégias digitais para avaliar os próximos passos do bolsonarismo digital e sugerir como o presidente e a multidão dos seus seguidores devem agir. Desde o começo do processo eleitoral, a campanha de Jair foi lapidada para passar a impressão de organicidade. Ele próprio, seus filhos, um monte de aspones e os prestadores de serviços da campanha martelaram esse argumento: “quem faz a campanha são os milhares de apoiadores voluntários espalhados em todo o Brasil. Os grupos são criados e nutridos organicamente”, segundo Marcos Aurélio Carvalho, sócio da AM4 Brasil Inteligência Digital, que trabalhou na campanha, falou para a Folha.

Já se suspeitava de que esse discurso fosse groselha, mas hoje a gente tem provas. É claro que devem existir centenas de grupos criados e gerenciados por correligionários que não ganham um real e, por acreditarem nos Bolsonaro, republicam conteúdos de sites, canais do YouTube e perfis no Facebook, Twitter e Instagram com maior projeção. Ao fazerem isso, esses grupos cerram fileiras com a estratégia definida no Palácio do Planalto. A SINCRONICIDADE do discurso em comunidades digitais diferentes exige um cérebro por trás da milícia digital, alguém que coordene tudo: criar perfis falsos, determinar a pauta, elaborar conteúdos específicos, direcionar respostas, dar projeção a quem diz amém (e porrada em que sai da linha) e indicar qual rival do bolsonarismo atacar e como, sempre com conteúdo grosseiramente mentiroso. A mitomania é um traço incontestável do bolsonarismo.

É o tal “gabinete do ódio”, bem detalhado pelo jornal O Estado de S. Paulo em setembro de 2019. Aliás, a reportagem do Estadão evidencia que o “gabinete do ódio” é motivo de cisão dentro da família — Flávio, o filho acusado de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, odeia o grupo. Se você apertou os olhos ao ouvir o nome Tércio Arnaud Thomaz e ficou com a sensação de já tê-lo ouvido, é por que você já ouviu: Tércio é o sujeito que operava as páginas falsas que o Facebook tirou do ar na semana passada.

A execução da estratégia, da aproximação em março de 2017 à formalização do gabinete do ódio, não se restringe ao WhatsApp — é algo que escorre e influencia em todas as outras plataformas. Antes de entendermos a particularidades delas, existe uma outra peça importante no uso do WhatsApp por parte dos Bolsonaros na eleição de 2018. As campanhas coordenadas para defender o presidente e atacar inimigos ganhou uma anabolizada quando empresários alinhados a Bolsonaro passaram a financiar o envio em massa de mensagens antipetistas para milhões de brasileiros nas semanas anteriores ao segundo turno. A notícia foi revelada em 18 de outubro de 2018 pela repórter Patrícia Campos Mello. Segundo a reportagem, as empresas Quickmobile, Yacows, Croc Services e SMS Market tinham, antes do segundo turno, vendido pacotes de envio em massa de mensagens contra o PT para mailings fornecidos ou pela própria empresa ou pela campanha de Bolsonaro. Os contratos podiam chegar a R$ 12 milhões e a Havan teria sido uma das empresas financiadoras.

Vamos revisar a linha do tempo para não nos perdermos: 1) o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) veda o uso de ferramentas para disparo em massa de mensagens; 2) o TSE exige que todos os gastos envolvidos em uma campanha sejam declarados (os disparos não foram); 3) o TSE também proíbe a venda de mailings de terceiros (só pode usar o coletado pela campanha); e 4) o financiamento eleitoral privado era proibido em 2018, afinal, trata-se de, ainda que indiretamente, doações de campanha. Ou seja: é o atacadão do crime.

Antes mesmo do segundo turno, o TSE abriu uma investigação para averiguar se houve impulsionamento irregular de mensagens eleitorais, mas até sua avó que precisa de um andador se locomove mais rápido que o processo. Oito meses depois do início da ação, o próprio TSE não tinha ouvido nenhuma testemunha. O WhatsApp também não ajudou — só um ano depois da reportagem o app admitiu que foi usado para “envios maciços de mensagens, que violaram nossos termos de uso para atingir um grande número de pessoas”. Questionados também, Facebook e Twitter se fazem de loucos e respondem o que não foi perguntado. Rival nas urnas, Haddad foi multado por ter impulsionado conteúdo desfavorável a Bolsonaro no Google menos de seis meses após o segundo turno.

Jornalista que apurou a informação, Patrícia automaticamente virou alvo da milícia digital controlada por Jair, Carlos e o “gabinete do ódio”. Eduardo Bolsonaro passou a divulgar a fantasiosa versão que a repórter seduzia suas fontes em busca de informações, o que fez com que Patrícia abrisse um processo contra o deputado que não ganhou de aniversário de 35 anos a embaixada dos Estados Unidos. O Tecnocracia presta sua solidariedade e está 100% ao lado de Patrícia durante todo o processo. A horrenda experiência de ser alvo de uma milícia digital da pior estirpe possível será detalhada em livro que Patrícia lançará ainda em julho, chamado A máquina do ódio. Imperdível. Nos dias seguintes à publicação da reportagem em 2018, Jair Bolsonaro processou Haddad, Patrícia e dois dos acionistas do Grupo Folha, Luiz Frias e Maria Cristina Frias, por abuso de poder econômico midiático e conluio. Em sua ação, Bolsonaro pedia que Haddad e sua vice na chapa, Manuela d’Ávila (PCdoB), ficassem inelegíveis por oito anos. Perdeu no TSE por 7 a 0. No estágio em que estamos do processo original do TSE, informações anexadas à CPMI das fake news provaram que agências fizeram disparo em massa. O CEO de uma delas confirmou ter feito para Bolsonaro, Haddad e Henrique Meirelles. Uma foto mostrava o título de uma das mensagens enviadas: “Urgente: Marcelo Odebrecht delata Fernando Haddad”. Não sei você, mas parece que talvez quem pagou isso era alguém que não curtia muito o Haddad. Mas sei lá.

Facebook, Twitter e Instagram funcionam sob essa mesma lógica, com algumas particularidades: as redes de perfis apócrifos ou falsos que divulgam conteúdo de maneira coordenada. A estratégia era bem clara para quem acompanhava os trending topics do Twitter e se confirmou no começo de julho, quando o Facebook tira do ar uma rede de 73 perfis ligados aos gabinetes de Jair, Eduardo e Flávio Bolsonaro — só não achou oficialmente no do Carlos, já que ele nunca está na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Foram 35 contas do Facebook e 38 no Instagram, mais 14 páginas e um grupo. Um dos atingidos foi Tércio Arnaud — taí o assessor do Carlos que faltava. “Além da página ‘Bolsonaro Opressor 2.0’, seguida por mais de 1 milhão de pessoas no Facebook, foi identificada a conta @bolsonaronewsss, também sob administração de Tércio, com 492 mil seguidores e mais de 11 mil publicações. De acordo com o estudo, muitas dessas postagens feitas por Tércio foram publicadas durante o horário comercial, ou seja, podem ter sido feitas durante o expediente dele no Planalto”.

Além do clã, o Facebook identificou assessores dos deputados estaduais Anderson Moraes e Alana Passos — sem surpresa, ambos do PSL carioca. Registre-se que a ação do Facebook tirou do ar também redes semelhantes usadas por governos de esquerda no Equador, Argentina e Venezuela. Nada no Brasil; aqui os caras estão ocupados tentando entender como funciona blockchain. Justiça seja feita, o PT teve contas banidas no WhatsApp em julho por replicar a ação que fundamenta uma investigação cada vez mais quente sobre seu maior rival político: o envio em massa de mensagens. Quando a notícia vazou, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, justificou com um argumento delirante, corroborando minha teoria de que não há ajuda maior ao bolsonarismo do que Gleise à frente do PT. Vale a pena destacar que o que motivou o Facebook a tirar as páginas do ar não foi o teor das mensagens (os posts tinham desinformação e caráter golpista, com ataques às instituições), mas o fato de que Tércio e os outros forjavam identidades para enganar os usuários do Facebook.

No YouTube, a lógica tem suas diferenças e eu me sinto confortável para cravar isso já que minha empresa, a Novelo, vem estudando o discurso político no YouTube desde 2018. Essa diferença da lógica tem a ver com o fato de que, ao contrário de WhatsApp, Facebook, Twitter e Instagram, criar um canal apócrifo no YouTube é possível, mas é mais difícil. Os canais de YouTube são personalistas e o clã Bolsonaro percebeu que isso seria um problema no primeiro ano da presidência. É difícil afirmar que havia algum tipo de esforço coordenado no YouTube durante as eleições. Se houve, ele não foi tão explícito como o que acontece no último ano. Por isso, a gente vai tratar o papel do YouTube no bolsonarismo digital em duas fases.

A primeira soa razoavelmente orgânica. Eu falo isso já que a Novelo analisou +17 mil rankings do YouTube Trending, o ranking de vídeos que mais estão bombando na plataforma, durante o segundo semestre de 2018. Entre as descobertas, ficou claro que nenhum outro partido, político ou movimento se aproximou de Bolsonaro no YouTube durante o período. O único político que teve dias com mais menções foi Lula e, quando você vê o teor dos vídeos, entende que são críticas daquele estilo de comunicação bolsonarista. Essa primeira análise saiu há quase um ano no The Intercept.

Nota-se um ambiente brutalmente favorável a Bolsonaro no YouTube durante as eleições. Por quê? A minha teoria é que a mensagem do bolsonarismo — respostas impactantes e simples para problemas complexos — sempre ressoou mais com um público mais jovem, a maioria dos autores que frequentavam o YouTube Trending na época. Alguns youtubers não políticos de muito alcance defendiam abertamente o então candidato. O melhor exemplo é o Games Eduuu, um dos maiores youtubers de videogame do Brasil. Hoje ele tem 8 milhões de seguidores, nas eleições ele tinha cerca de 5 milhões. A dominação do Trending não significa que o Google escolheu o Bolsonaro. Trata-se mais de um sintoma do modelo de negócios das grandes plataformas digitais. O formato dos vídeos do bolsonarismo digital, naquele histerismo cheio de adjetivos, ataques e mentiras deslavadas, envolve um engajamento maior pela revolta que carrega e, consequentemente, gera.

Tem outra coisa: os movimentos de direita sempre foram melhores em atrair a atenção dos jovens no quesito formato. A linguagem dos canais de direita sempre foi mais ágil e palatável do que os de esquerda no YouTube Brasil — é como se você comparasse um anime a um textão de Facebook. (Um anime que defende mamadeira de rola, fechamento do Congresso e o fuzilamento de rivais, bom deixar claro.) Até hoje é assim. A Novelo analisa os youtubers de direita e esquerda no Brasil há um ano e é incrível como há uma lacuna de linguagem. Vamos deixar claro que formato é uma coisa, conteúdo é outra.

A segunda fase começa quando dois dos maiores canais de direita do Brasil rompem com o bolsonarismo: o MBL em abril e o Nando Moura em setembro de 2019. A partir daí, a base de ambos os canais começou a encolher, algo que segue até hoje. Ao mesmo tempo, a gente começa a ver a ascensão relâmpago de alguns sujeitos que repetem com exatidão o discurso bolsonarista.O melhor exemplo é Gabriel Monteiro, um policial militar que, segundo a revista Época, “se passou por um estudante para conseguir ‘simular uma entrevista’ com o coronel Íbis, na porta da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), postada sem autorização no YouTube”. Em poucos meses, o canal de Gabriel no YouTube passou dos 2 milhões de assinantes. No primeiro semestre de 2020, ninguém na bolha bolsonarista do YouTube cresceu mais rápido. Quem foi defendido por Eduardo Bolsonaro no Twitter em 5 de março? Quem seria recebido pelo presidente menos de uma semana depois?

Um recorte dos canais de direita no YouTube Brasil monitorados pela Novelo. Clique para ampliar.

Há um claro movimento de levantar quem reproduz o discurso oficial, dando publicidade nas mídias sociais do clã, e bater em quem critica. O encolhimento de Nando Moura e MBL e o crescimento como foguete de youtubers como Gabriel Monteiro e Fernando Lisboa, convidado para tomar café com Bolsonaro em maio, não são eventos aleatórios e fazem parte de uma movimentação coordenada para garantir que youtubers alinhados ganhem assinantes, visualizações e, consequentemente, dinheiro. Nando Moura continua como o youtuber de direita mais popular do Brasil, mas há uma multidão de canais bolsonaristas que, ao contrário dele, estão crescendo todo mês, inclusive o canal do próprio presidente. Os repórteres Gustavo Schmitt e Sérgio Roxo, do jornal O Globo, explicaram bem como funciona essa estratégia de construção de youtubers por parte do clã.

Enquanto os outros aquecem, a máquina voa

No primeiro semestre de 2018, todos os candidatos à presidência começaram a bolar sua estratégia, montar grupos digitais, atrair a militância. Meirelles investiu uma parte da sua fortuna para tentar virar um meme, Haddad registrou seu plano de governo em blockchain, como falamos no começo. Todos, menos o Bolsonaro. Sua máquina de comunicação já estava rodando há um ano com alta capilaridade e voando baixo. Bolsonaro foi o primeiro político a entender o fenômeno da desintermediação: com um smartphone na mão de cada brasileiro, você não precisa mais da TV ou dos jornais para falar com os eleitores. Enquanto seus rivais continuavam apostando na máxima de que não se ganha eleição majoritária no Brasil sem espaço na TV, Bolsonaro entendeu que a sua TV era o smartphone.

Depois de construir o mínimo de projeção midiática dando declarações homofóbicas e racistas em programas de TV como CQC e Luciana Gimenez (quem diria que citar-la-íamos sem piada nesse podcast…), Jair notou que dava para tentar cultivar — e aumentar — essa pequena fama conquistada na TV se controlasse a mensagem e conseguisse atingir um público altamente engajado pós-Lava Jato. O objetivo do “gabinete do ódio” era esse e foi atingido: José Mateus Sales Gomes, Tércio Arnaud Thomaz e Carlos Bolsonaro estão no mesmo grupo de Antônio Lavareda (que elegeu FHC em 1994), Duda Mendonça (Lula em 2002) e João Santana (Dilma em 2010) como marqueteiros que colocaram seus candidatos no Palácio do Planalto.

As milhares de comunidades online orquestradas pelo “gabinete do ódio” tinham milhões de brasileiros altamente motivados politicamente consumindo e reencaminhando posts, vídeos e textos com um mesmo teor: mentira delirante divulgada “anonimamente”. Não existe bolsonarismo digital sem mentiras descaradas ou hipérboles. Não existe debate moderado nem respeito à posição alheia. As histórias distribuídas atingem níveis que nem Bunnel seria capaz — lá está a já mítica “mamadeira de piroca” distribuída nos colégios por inimigos políticos. Acusações contra adversários políticos vêm sempre recheadas de adjetivos agressivos. Até hoje, é comum ver verbos como “humilhar” e “massacrar” nos títulos dos conteúdos, principalmente vídeos. Com o tsunami de mentira, os jornais se esforçavam para checar as informações, mas sempre houve uma lacuna no tempo e na escala entre a divulgação em massa e o desmentido. Quando a correção chegava, sempre dos veículos considerados fraudulentos e “vendidos” pela militância bolsonarista, a informação já tinha sido circulada e assimilada. O conteúdo já tinha atingido um dos seus objetivos: pegar o eleitor pelo fígado, não pela cabeça. Quem não teve um parente, um tio, um pai que repetiu na mesa do jantar alguma barbaridade explicitamente falsa?

Outro objetivo era ainda mais importante e com consequências de médio prazo: desacreditar as instituições tradicionalmente atreladas à divulgação de notícias. Nada mais era fato, tudo passou a ser narrativa, a palavra mágica ao redor do qual a política gira atualmente. Na guerra de narrativas, a mentira é uma arma comum. Ao desacreditar a imprensa que cobre os malfeitos, o judiciário que os investiga, os órgãos de combate à corrupção, as outras esferas de poder ou os adversários políticos e indicar sempre uma ameaça no horizonte, tenta-se fazer com que emerja a imagem de um líder com todas as respostas, o único capaz de salvar a nação e, por isso, merecedor de ter todos os poderes políticos possíveis. O fascismo não só manda um abraço: ele vem em pessoa dá-lo.

A impressão de organicidade

Nesse cenário, além das mentiras e da virulência, outro pilar fundamental é a impressão de um movimento orgânico, sem organização central, feito totalmente pela “massa”. Não à toa, Bolsonaro respondeu à revelação do envio em massa de mensagens bancado por empresários com energia — a impressão de que ele está parado, enquanto a multidão o aclama, é fundamental à imagem do líder nos braços do “povo” (entre várias aspas). Sempre que teve a chance, sua campanha martelou essa ideia. Com as investigações da CPI e do inquérito do STF contra fake news, pesquisas acadêmicas sobre o discurso político em plataformas digitais e o trabalho primoroso da imprensa em revelar personagens e ligações, está explícito hoje que havia uma organização, uma cabeça.

Essa cabeça ainda coordena a reação dos veículos e influenciadores bolsonaristas mais próximos. Com uma espécie de “efeito cascata”, a movimentação transborda para milhares de grupos digitais, alguns com manifestações orgânicas. Na hora de classificar o movimento, o bolsonarismo convenientemente pega essa parte do seu público, a base da pirâmide, para argumentar que trata-se de um movimento não coordenado, algo que a Luciana Gimenez chamaria de grassroots. O importante aqui é o resto do retrato, a pirâmide do meio para cima. É ali onde estão os coordenadores. Essa falsa impressão de organicidade tenta engrossar o discurso de que “o povo está com ele”. Quando Bolsonaro vai a uma manifestação que ataca o Legislativo e o Judiciário e repete que “nós temos o povo ao nosso lado”, é só a transferência para o mundo real do que o clã já faz, pelo menos, desde 2017. Quando cria perfis falsos no Facebook, Instagram e Twitter, o “gabinete do ódio” forja o tal “povo”. Na Praça dos Três Poderes, porém, com imagens panorâmicas das emissoras de TV, fica mais difícil despistar que estamos falando de umas poucas dezenas de malucos.

O bolsonarismo também é beneficiado por uma espécie de linha auxiliar: veículos cooptados, como foram as páginas de Mateus Sales e Tércio Thomaz e, por meses, o MBL, ou criados com o intuito de repercutir a mensagem. Vamos lembrar que, em julho de 2018, o Facebook tirou do ar 196 páginas e 87 perfis do MBL, na época ainda bolsonarista até a medula, por violação de políticas de autenticidade e divulgação de desinformação, num modelo parecido com a limpeza feita agora, dois anos depois. Essa linha auxiliar seguia o mesmo método do bolsonarismo: exageros, hipérboles, ataques políticos e mentiras deslavadas. Não à toa, o bolsonarismo digital saiu apagando vídeos, posts e notícias quando o inquérito de fake news do STF virou operação de busca e apreensão pela Polícia Federal, no final de maio. Somente em junho, mais de 3,4 mil vídeos de bolsonaristas no YouTube Brasil foram escondidos ou apagados, a imensa maioria pelos próprios youtubers. Entre os que mais apagaram vídeos estão dois alvos do inquérito: Allan dos Santos, do Terça Livre, e Alberto Silva, d’O Giro de Notícias. Muitos dos vídeos sumidos faziam ataques diretos aos STF. Se você quiser ver minha cara no Jornal Nacional, é só clicar. A limpeza não se restringiu ao YouTube: sites governistas também sumiram com conteúdos.

Aparentemente, a extrema-direita brasileira importou dos EUA essa noção de que a garantia de livre expressão, simbolizada lá pela primeira emenda da Constituição, vale também para preconceito e crimes de ódio. A extrema-direita norte-americana sempre repete a primeira emenda quando se questiona sua atuação digital e as plataformas de internet, notoriamente o Facebook, se blindam das críticas usando o mesmo argumento. A questão é a primeira emenda nos EUA é muito mais permissiva na noção de liberdade de expressão do que o artigo 5º da Constituição Federal, que trata do assunto3. No Brasil, usar símbolos nazistas, como fez a campanha do Trump no Facebook, não é liberdade de expressão, é crime. Defender o fechamento do Congresso e do STF? Crime também. Quando o bolsonarismo digital percebeu que, uau, o Código Penal segue valendo para o que é dito online, o pânico fez muita gente rever os discursos e se afastar da ideia — pelo menos publicamente.

Acho que é bom a gente fazer uma distinção aqui. Ter construído a máquina que canalizou e alimentou essa revolta difusa do eleitorado só explica parte da eleição de Bolsonaro. Se Haddad tivesse seguido a mesma estratégia, dificilmente estaria no Palácio do Planalto. Há uma espécie de tempestade perfeita: o sujeito melhor posicionado para explorar essa estratégia (de novo, cheia de ações suspeitas, como financiamento privado, e sustentada por mentiras) soube ler os ventos e executá-la.

E só conseguiu executá-la com sucesso porque as plataformas donas dos serviços mantiveram uma postura displicente. Embaladas pela ilusão de que só poderiam fazer o bem, Facebook, Google e Twitter fecharam aos olhos para a transformação dos serviços em armas políticas, a chamada “weaponization” nos EUA. Na época, Mark Zuckerberg deu de ombros e descartou a possibilidade de o Facebook ter influência em eleições nacionais. A frase não envelheceu bem — hoje existem provas inegáveis de que a Rússia e a China criaram redes de desinformação para a eleição norte-americana. Em menor grau, o argumento vale para o Brasil. Bolsonaro só foi capaz de fazer uma campanha baseada em mentiras e crimes por não ter encontrado qualquer tipo de restrição por parte das plataformas.

“Quer impor a censura, Guilherme. Sabia!”, já diria o eleitor que continua aliado ao genocida da pandemia. Liberdade de expressão não te exime de seguir as leis. Defender o fechamento do Congresso? Crime. Usar símbolo nazista? Crime. Pegar dinheiro de empresa para fazer impulsionamento eleitoral? Crime duas vezes. Não tem por que reinventar a roda. Quem melhor define isso é o Silvio Meira: não tem por que você fazer uma lei para punir um assassinato por martelo e outra para um assassinato usando uma arma. Ambos são assassinatos. É por isso que eu vejo essa lei de fake news com agonia. Você já imaginou como essa lei, promulgada, seria usada por um sujeito paranoico e autoritário como Jair Bolsonaro? Imagine se um veículo como a Folha publica um furo dizendo que um membro do governo fez algo errado após ouvir dezenas de pessoas no seu entorno. Não demoraria uma semana para que o governo enquadrasse a Folha e o/a jornalista na lei após ouvir o membro do seu governo mentir dizendo que é mentira.

A questão é que as empresas donas das plataformas precisam fazer sua parte. É óbvio que o WhatsApp conseguiria ver quem estava promovendo envio em massa de mensagens. É óbvio que o Facebook consegue identificar um mesmo usuário dono de dezenas de perfis e páginas. A mesma coisa vale para o Twitter. E o YouTube consegue ver quais os canais que estão distribuindo desinformação. Tecnicamente, tudo isso é possível, até razoavelmente simples para empresas que têm os melhores engenheiros do mundo. A questão é que a discussão não é técnica. É política. Se as empresas não querem, quem vai fazer? O Facebook só se mexe sob pressão, principalmente quando o foco são suas relações com o governo Trump. Nas duas vezes em que Zuckerberg citou nominalmente Bolsonaro, a rede social estava sob pressão pela proximidade com Trump. Más notícias, Jair: o Facebook te joga na fogueira para salvar seu “amiguinho”.

E por que elas não fazem? Porque a campanha virulenta e mentirosa é exatamente o tipo de conteúdo que essas redes nasceram para abrigar e espalhar. Quem melhor define isso é, de novo, o Roger McNamee, um dos primeiros investidores do Facebook que vem apontando há anos seus perigos, num ensaio na Wired:

Os problemas com as maiores empresas do Vale do Silício, especialmente as plataformas online, não são ocasionais ou inadvertidos. Eles são sistêmicos e intencionais. Discurso de ódio, desinformação e teorias da conspiração são lubrificantes meticulosamente criados para maximizar o faturamento para Facebook, YouTube, Instagram e Twitter. A decadência financeira do jornalismo aconteceu porque Google e Facebook descobriram uma forma de se inserir entre as companhias de mídia e suas audiências, e então desviar todo o dinheiro da publicidade. A explosão e a influência dos grupos extremistas no Facebook não são acidentais; eles são o resultado de decisões conscientes.

A falta de moderação no discurso, os adjetivos, a hipérbole, as mentiras trabalham todas em uma direção: a resposta, a revolta. O engajamento. Marshall McLuhan vibra em seu túmulo. Eles são parte do modelo de negócios de todas essas empresas. Mudá-las significaria matá-las. E nenhum bilionário do Vale do Silício vai se mexer para perder sua fortuna e seu poder, ainda que sejam diretamente responsáveis pela corrosão da democracia em alguns países pelo mundo. Todas as ações vão ser feitas considerando o ganho de relações públicas de um lado (o quanto o mercado vai achar que eles estão fazendo algo) e o menor impacto possível no lucro e no valor de mercado do outro. Em outras palavras: na ascensão do fascismo moderno, elas deram uma ajuda enorme em fechar os olhos. Para consertar o problema, não espera a mesma ajuda.

Foto do topo: Antonio Cruz/Agência Brasil.


  1. As mudanças de julho de 2018 são respostas às críticas recebidas pelo papel do WhatsApp na onda de desinformação que tomou as eleições e nos espancamentos motivados por mensagens do WhatsApp na Índia e na Indonésia.
  2. Em abril de 2020, a pandemia da COVID-19 fez o WhatsApp restringir o reencaminhamento para um contato ou grupo.
  3. O Ghedin escreveu uma reportagem que aborda a questão mais a fundo
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