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May 24, 2022
#69 Dom Quixote - a metáfora do caminho
Play • 11 min

“Caminhante, não existe caminho, ele se faz ao andar.” - (A. Machado)


Texto: Pedro Villalba , País: Espanha , Imagem: freeimages-alfonso-diaz-Jose-Bernalte CCO


Há alguns anos tive uma intuição sobre o significado da Ilíada e da Odisseia, duas obras que me acompanharam durante toda minha vida: de repente me passou pela cabeça que a Ilíada, no mundo da guerra de Troia, com todos os seus heróis e deuses e o incessante ruído dos metais, representava o mundo tal como é, com as forças cósmicas que incidem no seu curso, o inexorável curso do destino. A Odisseia, que realmente é um livro moderno, representaria, depois do aterrador conhecimento do mundo no qual “se vive”“, o outro caminho de Ulisses, a volta ao si-mesmo, imortal, a pátria primogênita, Ítaca, onde Penélope, sua alma, o esperou por muitos anos. É o retorno que todo ser humano, depois de purificar-se através de experiências sem fim, há de realizar para voltar à origem, ao ser divino.

Também sempre me questionei sobre o olhar de Cervantes ao escrever Dom Quixote. Nunca tive dúvidas sobre seu talento, generosidade, idealismo, sabedoria; de sua escrita transparente, irônica, compassiva. Porém, sempre me escapava, mais que a cozinha, o sabor da obra. Aparte das fontes e interpretações literárias, cuja investigação não termina, eu buscava outro significado. Não a novela cômica, romântica, metacriadora, que ela é, mas sim seu significado oculto: o que nos revelava da verdadeira essência humana. A genialidade da obra e o monumental acréscimo de comentários críticos escureceram muitas coisas que deveriam ficar veladas, e ficaram.

Da mesma forma, sempre me perguntei sobre Shakespeare, cujo olhar era um cristal tão transparente que parecia ter desaparecido toda a entidade criadora: atrás das obras de Shakespeare não existe ninguém, não existe um ego que se mostre, somente um espelho que mostra características e situações. E uma imensa criação linguística que reconstruiu o idioma inglês no período isabelino.

Porém, voltemos a Cervantes. Um belo dia, como me aconteceu com as obras de Homero, fez-se um pouco de luz e intui um sentido global das idas e vindas do cavaleiro e da sua triste figura, e seu escudeiro Sancho.

Em linhas gerais, é-me revelado que o Quixote é uma obra sobre o caminho: refiro-me ao caminho interior, ao caminho da consciência que avança, se expende e se recompõe, sempre mutante, porém, sem perder de vista seu destino: a compreensão da unidade e da harmonia da criação. Isso está exposto no seu discurso sobre a Idade de Ouro diante dos atônitos cabreiros, uns seres humildes aos quais é revelado o mistério, como aos pastores de Belém. Nele se revela o idealismo esotérico do Renascimento, que emana do mundo clássico, com suas implicações herméticas e orientais. Não esqueçamos que é atribuído a Cervantes somente a tradução da obra de um tal Cide Bebengueli, autor arábico. O mundo árabe ainda está muito perto da Espanha; não se passou dois séculos desde sua derrota definitiva e Cervantes, ainda vivo, sai para combater rebeliões de mouriscos em Granada e o Levante espanhol. E em todo o Mediterrâneo existe “a ameaça do Turco”. Cervantes luta como um soldado em Lepanto e é cativo em Angel durante oito anos.

Dom Quixote realiza três saídas. Na segunda vez vai acompanhado de Sancho, que convenceu a sua mulher para que o deixasse partir, pois vai obter lucro. Sancho é um ser com os pés na terra, materialista e sensato, e uma ajuda imensa para D. Quixote em todas as suas desgraças. É, nesse sentido simbólico, a outra parte de nós mesmos, o que chamamos de ego ou consciência natural, que tem que cuidar da sobrevivência e das necessidades básicas. Sem ela não seria possível o caminho, porque a rosa tem que crescer desde baixo, desde a consciência natural, que no melhor dos casos compreende e colabora.

Através de D. Quixote e Sancho, Cervantes coloca o mito cavalheiresco, provençal, na superfície da terra, porque na terra se compreende os segredos do de cima e do debaixo. Poderíamos dizer que em Cervantes o mito cavalheiresco se faz carne e sai pelos caminhos; continuamente nos mostra não como devemos ser, mas como somos: Percival representa o final de seu trajeto, um ideal sem maculas nem fissuras; D. Quixote cai uma e outra vez: atrás ficaram os cânones cavalheirescos e somente fica o caminho. Assim, Cervantes funda a modernidade depois da mentalidade medieval.

Mas, voltemos a nossa tese.

Se tomarmos em conta o de cima, a vertical que baixa das estrelas, e o debaixo, a horizontal que caminha, D. Quixote acomete o terceiro caminho: fazer seu próprio caminho. Por isso sai três vezes para experimentar o que leu e quer viver em sua carne. Aquele que prega com efusiva eloquência é algo fora do comum para a mentalidade humana, por isso Cervantes tem que criar um personagem “louco”. Só um louco, como uma criança, conecta-se diretamente com a verdade e é capaz de nos oferecer uma verdade que pode ser óbvia ou “perdoada” porque provém de um personagem que perdeu a razão, que abandonou as convenções do espaço e do tempo e adentrou nos infinitos horizontes da eternidade. D. Quixote, depois de cada aventura, fica destruído, dolorido, confuso. E não podia ser de outro modo, porque em cada façanha em que ele enfrentou um fantasma interior, fechava a passagem para a evolução da consciência. Cada obstáculo mostra um erro de percepção, o que todos nós sofremos, e, ao experimentar, saímos confusos e, talvez justamente por isso, mais esclarecidos...

Digamos que os moinhos de vento podem representar o eon do destino, ou o do eterno retorno, a roda de samsara, que dá voltas sobre si mesma e volteia tudo o que aparece a seu redor; mas também mói o trigo, o alimento essencial: toda a lição da alquimia da consciência que se alimenta e cresce confrontada com o ato. Os rebanhos são a consciência tribal das convenções, é a consciência animal. Assim, Cervantes nos propõe em seu Quixote uma série de enigmas sobre a evolução da consciência, à medida que avança a narração, o caminho adquire sentido e o personagem se transforma. Como seus grandes ideais, - Amadis, Tirant lo Blanc, Percival, o cavaleiro da carroça, os cavaleiros do ciclo artúrico -, D. Quixote faz seu caminho. Se não, de nada serviria tanta fanfarra idealista. A ideia tem que ser colocada em prática para que frutifique e aclare o entendimento, e eleve a alma.

Na verdade, só um louco – existem os loucos de amor do sufismo – poderia aceitar o esforço titânico pela libertação da alma. A vontade idealista dá força ao mito e faz pensar em outras forças que não sejam as puramente humanas para enfrentar gigantes e exércitos. Porque o mito da liberdade leva aderidas as forças da liberdade; o caminho evoca as forças do caminho. Curiosamente, ao voltar e também recuperar-se da segunda saída, estando ainda recluso, diante do medo geral, responde a seus amigos, o padre e o barbeiro, que a ameaça do Turco se resolveria com a presença de mais cavaleiros andantes no mundo. Quer dizer, com mais gente com consciência, que é única coisa que pode resolver realmente os problemas. E não tanto pela sua força destruidora de exércitos, mas sim pela presença de sua luz no mundo, que anula e dissolve os conflitos.

Não vamos falar nem de judeus convertidos, nem de soldados, do cativeiro em Angel, do coletor de impostos nas terras de Còrdoba e de Sevilha, da prisão, dos amores... ainda que as experiências tenham preenchido uma vida que desembocou na obra mestra que sempre nos parece muito mais do que parecia.

D. Quixote morre quando se acaba sua loucura, diríamos que purificou o coração através da ação, e morre em paz, não por haver recobrado a sensatez, mas sim por haver feito seu caminho iniciático, o caminho dos cavaleiros do graal.



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