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May 18, 2021
#20 Operação Resgate - uma parábola sobre a alegria de simplesmente ser.
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Operação resgate - Uma parábola sobre a alegria e a liberdade de simplesmente ser   

Nosso tema, Operação Resgate, dá relevo ao primeiro passo no caminho espiritual: o autoconhecimento a partir do discernimento libertador.


Do alto do observatório vislumbro o horizonte.

O céu e o mar parecem não ter fim.

Quando o dia começa, veem-se gaivotas planando sobre os penhascos. Com olhar atento, em tempo claro, a quietude e a transparência da água permitem adivinhar as profundezas abissais cheias de seres, muitos ainda desconhecidos.

Minha missão é reconhecimento e resgate. Afinal, assim como os seres marítimos que observo, estou atento ao mar infinito da essência humana que se manifesta em mim.

Reconhecer demanda conhecimento prévio. Resgatar exige amor e coragem. Portanto, reconhecer depende de uma memória especial e resgatar requer empenho em ação constante. Cada passo desse caminho de autoconhecimento me leva mais alto e mais fundo nessa essência. Como diria Hermes Trismegisto: Assim como em cima é embaixo. Utilizo tudo o que possa ser útil. Entrego-me totalmente a esse ofício – o sagrado ofício.

Respiro fundo, buscando aproveitar ao máximo minhas lembranças de outras missões. Observo a imensa coleção do Museu do Observatório. Cada ser coletado corresponde a um vasto catálogo que outros observadores me legaram. Porém, é preciso checar um a um, captar com meus próprios olhos cada detalhe. É como se eu olhasse para essa bolha magnética em que meu eu está mergulhado: esse microcosmo cheio de lembranças de pensamentos, sentimentos, ações e reações, minhas e de tantos outros.

Mas o conhecimento não é apenas fruto de pensamentos, teorias, leituras, catálogos. Observo que meu olhar é seletivo. Gosto mais de um espécime do que de outro, sinto diferentes emoções ao entrar em contato visual com eles. Tateio cada um, percebo diferentes cores e tamanhos. O odor de maresia me traz lembranças de sabores. Alguns me fazem reviver sons naturais e me lembro de seres diferentes. Uns são predadores, outros são verdadeiros operários do mar sem fim. Procuro não selecionar pensamentos e sentimentos como “bons e maus”, “corretos e incorretos”, “pecaminosos e puros”. A ideia de pecado é uma criação humana, não divina! É apenas um tropeço, uma falha passageira – assim diz sua etimologia. Conceito gerado da culpa e das ideias repartidas em pares opostos.

No museu, os espécimes estão todos estáticos, sem vida – como é sem vida a teoria sobre eles. Houve tempo em que eu procurava catalogar meus pensamentos, emoções e ações. Percebi que era puro exercício da mente. Palavra morta.

Por isso, muitas vezes começo o dia mergulhando para conhecê-los de perto, enxergar seus movimentos, seu cotidiano. Nada como observar, sem analise, culpa, medo ou qualquer outro critério que não seja a pura observação. Afinal, como diz Krishnamurti, “A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar”. (...) ”O pensar e o sentir verdadeiros situam-se acima e além dos opostos, ao passo que o pensamento correto ou condicionado é por eles oprimido”. 

Preparo-me cuidadosamente, pensando na segurança, mas também na melhor forma de observar a vida utilizando bem o tempo de acordo com a quantidade exata de oxigênio que levo. Tudo o que existe em meu pequeno mundo reflete a vida que há nele. Mas preciso reconhecer meus limites para poder atuar de acordo com meu passo.

Na solidão silenciosa do observatório, o tempo pode ser uma prisão ou abrir novas dimensões. Posso ficar horas mergulhando ou admirando a natureza lá do alto. Mas também posso me perder em minúcias lendo catálogos no museu. Percebi que não adianta tentar aprender somente pelos livros e tentar controlar o silêncio para obter melhor auto-observação: o silêncio chega naturalmente, fluindo sem pensamento.

É preciso ter cuidado com a rotina: ela se repete e nos faz repetir nossas reações. Quando não percebemos isso, ficamos prisioneiros da beleza do céu e do mar, do Sol e da Lua, dos seres marinhos e das gaivotas. Esquecemos que estamos ali para observar. Pode acontecer, também, de um observador deixar-se enredar pela quantidade de conhecimento do museu e passar quase todo o tempo dentro dele, sem ver céu nem mar, nem Sol, nem Lua. Outros, fascinados pelo exercício do mergulho, ficam quase sem ar buscando os seres abissais, suas cores e formas, sua beleza ou monstruosidade. São tantas as distrações que o mundo nos proporciona! Deixar fluir não é ser condescendente nem distrair-se. É estar atento.

Cada observador tem seu estilo, suas histórias, seus objetivos pessoais. Mas a observação é simplesmente aquilo que é – sem palavras nem conceitos. Ela é uma etapa no caminho do reconhecimento e do resgate. Observar é estar presente no aqui e agora. Em grupo, observamos mais detalhes, com mais nitidez de alma.

Mas “reconhecimento” e “resgate” têm sentidos diferentes para cada um. As palavras não vestem bem nossa missão.

Foi assim que comecei a “mergulhar na observação”. Nesse mergulho, tudo é novo! Nada depende de opinião, crítica, medo ou culpa. O objetivo é reconhecer e resgatar. Reconhecer cada dia como uma oportunidade. Resgatar nossas forças para poder agir no momento exato.

Muitas vezes o reconhecimento começa com a lembrança de um conhecimento anterior, visto no catálogo do museu. Nesse caso, observo uma enguia e penso: isto é uma enguia. Mas será que eu sei o que é uma enguia para além do catálogo do museu? Então, “mergulho na observação” e me identifico com esse ser, com seus movimentos, com sua toca, com seus interesses, suas intenções. Já não coloco nome nele. Apenas observo. Não me encanto nem sinto repulsa. Observo a vida que se movimenta no aqui e agora, fluindo. A memória do pensamento não é o mesmo que a reminiscência espontânea – que flui, criando momentos de extrema lucidez.

Quando estou em missão de resgate, vou munido de instrumentos de acordo com o que preciso fazer: cuidar e resgatar. Os outros, os espécimes sãos, deixo que sigam seu caminho, até que a vida indique qual é seu destino. Os predadores não me atraem: nada representam para minha missão. Pensar-sentir-agir podem ser ações doentias, mas também podem ser uma dinâmica esquecida, concatenada, harmoniosa: nesse caso, esse movimento precisa ser resgatado.

Aprendi com minhas observações que cuidar de um ser não é aprisioná-lo em um aquário: é abrir possibilidades de cura para ele a partir de suas próprias forças. Logo que o processo acaba, ele mesmo se sente preparado para recuperar sua liberdade no mar sem fim: esse é o resgate. Ao vê-lo curado, livre e feliz, que alegria, que leveza sinto em meu coração! O autoconhecimento que parte da observação atenta e leve pode ser instrumento de cura e objeto de grande plenitude.

Assim, quando o dia termina, posso saborear as delícias da natureza do alto do observatório. Lá em cima, instalei a luz de um antigo farol, que ilumina as águas até a linha do horizonte – para mim e para outros navegantes de passagem.Quando a observação é iluminada pela força do coração que anseia por outras dimensões de consciência, todo esforço é concentrado para que essa radiante luz se derrame em todas as direções para toda a humanidade. Essa é a missão: Operação Resgate.

E é a partir desse lugar, imerso em minhas observações, que percebo dentro de mim seres-pensamento, seres-emoções e seres-reações. Eu os observo a cada instante. Sem medo, sem crítica, sem autoflagelação, sem culpa. Amorosamente, os reconheço um a um. Alguns, deixo seguir seu caminho até saber para que servem. Outros, deixo de alimentar, para que a natureza divina os dissolva. Os que são mais sensíveis, vou recolhendo aos poucos para cuidar de sua saúde espiritual em doses homeopáticas, a cada dia.

É assim que, sob a luz do farol, eles ficam preparados para o resgate rumo ao Grande Mar da verdadeira Vida.


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