Logon Podcast
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Aug 3, 2021
#30 A Princesa de Foix
Play • 13 min

Uma verdadeira Esclar Mond, “claridade para o mundo”, e uma das mais proeminentes figuras femininas da Idade Média. 

Texto: Grupo de autores Logon , País: Brasil , Imagem: LR

O Jardim das Rosas faz parte do Palácio Berbie, um ponto turístico bem preservado da cidade de Albi, no sul da França. Albi ganhou recente notoriedade por causa da ficção O Nome da Rosa, cuja trama é permeada de fatos ocorridos na Europa medieval que se relacionam com a história dos cátaros, de quem a princesa de Foix foi a maior expoente.

Embora não se tratasse de uma princesa como as de contos de fadas, Esclarmonde de Foix pode ser explicada como uma musa do amor romântico. Isso porque era ela a Dama a quem os trovadores da Provença se referiam nos versos de amor que compunham e cantavam na Idade Média. Ainda que raramente a nominassem, a Esclarmonde dedicavam sua lealdade incondicionalmente (Ferreira Filho & Souza, 2016, p. 25).

Os trovadores da Ocitânia, no entanto, ocultavam sob o signo da Dama um assunto proibido: a crença na Igreja do Amor, ou na fé cátara. Os cátaros tinham constituído uma comunidade iniciática aberta a qualquer pessoa pela primeira vez no Ocidente (Salomó, 2018, p. 93). No entanto, isso era considerado heresia, com pena de morte na fogueira. Para expressar sua fé sem correr riscos, tais poetas valiam-se das trovas para cultuar o Amor no sentido místico, sagrado. Desse modo, podiam trovar nos castelos cujos senhores tinham a mesma fé, fortalecendo as comunidades ligadas à Igreja do Amor.

Para Anne Baring, o papel histórico dos trovadores não se restringia em criar, pela poesia, um clima cultural em que a atitude em relação à mulher e ao Feminino pudesse ser transformada. Poderia também “reanimar a ideia da Missão: a busca do espiritual em oposição à visão material” (Baring, link nas referências). Para o trovador, a mulher amada era a imagem da Sabedoria Divina e seu único desejo era servi-la.

Esclarmonde, então, personificava a Dama a quem os trovadores dedicavam seus puros sentimentos, disfarçando-os de amor romântico. Com poesia e música dedicadas a ela, invocavam a sabedoria de sua própria alma, a sabedoria do espírito divino que reside em todo ser humano. As declarações a Esclarmonde eram, portanto, louvores ao trabalho interior que ela representava.

 

O trabalho de Esclarmonde para a humanidade

“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”, disse a raposa, no livro O Pequeno Príncipe (2016, p. 59). Nossa princesa Esclarmonde dedicou-se inteiramente à sua rosa, ao trabalho interior, seu coração, a ponto de tornar-se sinônimo do catarismo. Para ela, a rosa do coração era o que havia de mais importante.

Esclarmonde nasceu em Foix quando a cidade era um dos principais centros do catarismo da França nos séculos XI e XII. Com 12 anos, foi consagrada ao Espírito Santo juntamente com outras crianças da nobreza cátara. Aos 26 anos, quando uma séria perseguição na região de Pamiers culminou em muitas mortes, colheitas queimadas e casas saqueadas, ela reuniu os moradores do território governado por seu marido - que estava ausente na época - e os levou à região selvagem dos Corbières para ficarem em segurança. Foi a primeira ação ativa dela de que se tem notícia.

Depois de viúva, passou a dedicar-se inteiramente ao catarismo. Recebeu no castelo de Fanjeaux o sacramento conhecido por consolamentum, equivalente à Iluminação, e tornou-se uma Perfeita, como eram chamados os cátaros que tinham alcançado elevação espiritual (Ferreira Filho & Souza, 2016, p. 37).

Viveu nas montanhas e vales arborizados em Foix por vários períodos de sua vida, junto com outras mulheres, cuidando dos doentes, ensinando em escolas para crianças e adultos, e administrando ritos cátaros. Na Igreja do Amor, mulheres e homens tinham funções sacerdotais.

Foi uma das fundadoras dos ateliês e casas cátaras, que depois inspiraram os conventos católicos. Eram locais onde as mulheres aprendiam a medicina druida e trabalhavam em atividades importantes para a economia da época, como a tecelagem de tapetes e a produção de velas. Depois do trabalho, as mulheres permaneciam no local para dedicarem-se à espiritualidade, que era o real foco. Quando o catarismo tornou-se alvo da Cruzada Albigense, a ferocidade com que tais casas foram destruídas pela Inquisição não deixa dúvidas de que realizavam uma grande função espiritual (Salomó, 2018, p. 81).

Esclarmonde participava de debates teológicos quando só homens podiam fazê-lo. Ficou famoso o episódio relatado na crônica de Guillaume de Puylaurens, ocorrido no colóquio de Pamiers, em 1206, em que um frade dominicano irritou-se com ela durante um debate e disse-lhe: “Senhora, ide fiar em sua roca. Vós não podeis participar de um debate desse gênero” (Salomó, 2018, p. 99). Conta-se que Esclarmonde teria concordado em deixar o debate tranquilamente, dizendo que o tear a fazia entender melhor o mundo.

Na história contada pelos vencedores das cruzadas, teria morrido na fogueira durante o ataque da Cruzada Albigense a Montsegur, em 1244, quando cerca de 200 cátaros foram imolados sem oferecer nenhuma resistência. Isso é posto em dúvida quando se sabe que durante o Concílio de Latão, de 1215, o conde de Foix, seu irmão, referiu-se a Esclarmonde no passado, indicando que ela não estava mais neste mundo.

Sua alma, no entanto, teria acompanhado o canto dos perfeitos a caminho da fogueira, permanecido em Montségur até o último momento do catarismo e protegendo por 700 anos o “tesouro cátaro”. Mas não há como provar o que acontece no oculto.

Esclarmonde sobreviveu como a mulher que guiou concreta e espiritualmente um povo único, firmando-se como uma das Grandes Iniciadas da Era Cristã no Ocidente.

Foi, sem dúvida, a inspiração da Igreja cátara e o coração de sua resistência, e ficou imortalizada na memória do povo de Ariège como a mesma pomba que era o símbolo da Igreja do Espírito Santo. Uma verdadeira Esclar Mond, “claridade para o mundo”, e uma das mais proeminentes figuras femininas da Idade Média.

Mas deixemos 702 anos passarem e voltemos ao Jardim das Rosas, às margens do rio Tarn. Dali emerge a atmosfera do tempo em que os cátaros celebravam seus serviços templários no local.

Observando atentamente o lugar, encontramos Jan Van Rijckenborgh e Catharose de Petri, que estão ali com o objetivo de retomar a Fraternidade transfigurística precedente conhecida como Fraternidade Albigense, que abarca a Igreja do Amor (Huijs, 2017, p. 39). Olham as flores, extasiados.

E, então, lembramos da frase do livro de Exupéry:

"Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção."

E os olhos deles se encontram com os olhos da Igreja do Amor…


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