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Sep 14, 2021
#35 Sobre morrer à margem do tempo - Parte 1
Play • 6 min

A morte sempre foi um problema: 

talvez o maior problema da vida humana.


Texto: Isabel Lehnen und Peri Schmelzer , País: Alemanha , Imagem: Marvinton auf Pixabay CCO


Sobre Morrer à Margem do Tempo: será que esse título não é um pouco estranho? Bem, na verdade, não, porque é exatamente assim: a morte acontece na fronteira do tempo. Afinal, quando morremos, entra alguma coisa no decorrer do tempo tal como o conhecemos até agora: um outro nível de ser, um outro nível de vir a ser.

Trata-se de algo desconhecido. Isso é provavelmente o que mais assusta as pessoas: o fato de que existe alguma coisa que elas não sabem e não podem controlar. Não há como resistir. Acabaremos nos rendendo. Temos de nos render.

Mas também podemos nos entregar ao processo de morrer. E, para isso, precisamos de confiança: temos de confiar na vida. Parece ser um paradoxo – e ainda assim a chave é essa.

Afinal, já enquanto estamos vivos, percebemos muitas vezes que as coisas chegam ao fim – por exemplo: circunstâncias de nossa vida, relacionamentos etc.

Então “deixamos pra lá” – por livre e espontânea vontade ou porque não temos outra escolha. E assim a vida continua. Talvez no início pareça um pouco estranho, ou até mesmo bastante estranho, mas nossa vida continua.

Isso é verdade tanto para nossa vida exterior como para nossa vida interior. Passamos por processos em que trocamos de pele, nos livramos de padrões de pensamento e comportamento, deixamos para trás antigos padrões emocionais. Eles vão morrendo à medida que vivemos. E à medida que aprendemos que podemos crescer por meio de todos esses processos de morte, nossa confiança na vida também aumenta. É que a vida nos ensina como morrer.

Ó Senhor, concede a cada um sua própria morte,

o morrer que sai dessa vida

cheia de amor, significado e necessidade,

pois somos apenas casca e folha.

A grande morte que todos têm dentro de si,

esse é o fruto ao redor do qual

todas as coisas giram.                              

(Rainer Maria Rilke, em O Livro de Horas)

 

Krishnamurti fala sobre a morte[1]

A morte sempre foi um dos problemas, talvez o maior problema da vida humana. Não é o amor, nem o medo, nem os relacionamentos, mas essa questão, esse segredo, esse sentimento de estar chegando ao fim é o que preocupa a humanidade desde os tempos antigos.

Morrer é algo no futuro, algo de que temos medo, que não queremos. E, no entanto, está sempre lá. Seja por acidente, doença ou velhice – ela está sempre lá. Sejamos jovens ou velhos, frágeis ou cheios de entusiasmo pela vida, ela está sempre lá.

A maioria de nós tem medo de morrer porque não sabemos o que significa viver. Não sabemos viver; portanto, não sabemos como morrer. Enquanto tivermos medo da vida, teremos medo da morte. O homem que não tem medo da vida não tem medo de ficar completamente inseguro, pois entende que interiormente, psicologicamente, não há segurança. Quando não há segurança, há um movimento sem fim, e então vida e morte são a mesma coisa.

Para descobrir o que realmente acontece quando você morre, você precisa morrer. Não é brincadeira. Você precisa morrer – não fisicamente, mas psicologicamente, internamente, morrer para as coisas que você amava e para as coisas pelas quais você está ressentido. Se você morreu para um de seus prazeres, o menor ou o maior, naturalmente, sem qualquer restrição ou argumento, então você saberá o que significa morrer. Morrer é ter uma mente completamente vazia de si mesma, vazia de seus anseios, prazeres e agonias diárias. A morte é uma renovação, uma mutação na qual o pensamento não funciona porque o pensamento é antigo. Quando há morte, há algo totalmente novo. A libertação do conhecido é a morte – e então você está vivendo.


(continua na parte 2)

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