ANTÓNIO GUERREIRO | Aby Warburg - Imagem, memória e cultura
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Aby Warburg (Hamburgo, 1866-1929), que iniciou a sua investigação multidisciplinar como historiador da arte, é uma figura grandiosa da primeira metade do século XX. Com ele, as ciências humanas e as chamadas "ciências da cultura" atingiram a dimensão de um projecto utópico. Apesar do famoso Instituto, em Londres, que detém o seu nome e onde está depositado o seu arquivo, (e do qual Gombrich foi director), a sua herança científica e intelectual esteve adormecida durante mais de meio século (em parte, pelas dificuldades na recepção e transmissão da sua obra), mas nos últimos anos deu-se um "renascimento" warburguiano, com efeitos bem visíveis tanto na disciplina de História da Arte como na concepção da história da cultura.

Este seminário incide sobretudo em dois aspectos da investigação de Warburg:

1) os seus contributos metodológicos e conceptuais para uma diferente compreensão da historicidade da arte;

2) a sua concepção de uma Kulturwissenschaft (uma "ciência da cultura") unitária que elimina as fronteiras entre as disciplinas e reivindica o objectivo grandioso de fazer um diagnóstico da "esquizofrenia" da cultura ocidental. Assim a sua "ciência universal da cultura" e a sua teoria da imagem – implicando uma singularíssima "iconologia" que ultrapassa tanto o campo da estética como o da história da arte e conflui numa concepção antropológica – serão os dois núcleos fundamentais a desenvolver neste curso, numa perspectiva que abrange toda a investigação warburguiana e, muito especialmente, o seu inacabado "Atlas das Imagens".

António Guerreiro, ensaísta e crítico literário no semanário "Expresso", é autor de O Acento Agudo do Presente [Prémio de Ensaio P.E.N. 2000, Cotovia] e editou com Olga Pombo e António Franco Alexandre, Enciclopédia e Hipertexto. Fundou com José Gil e Silvina Rodrigues Lopes a revista Elipse. Walter Benjamin e Aby Warburg são os autores a que tem dedicado nos últimos anos o seu trabalho de investigação. Com a Porta 33, António Guerreiro colaborou na apresentação dos livros Cântico dos Cânticos, com José Tolentino Mendonça, Ilda David e Alexandre Melo, [Museu de Arte Sacra, 1997] e O Lugar do Poço, com Rui Chafes e João Miguel Fernandes Jorge, [Porta 33, 1998]; participou no seminário Identidade(s): Nada, Tudo, Alguma Coisa, com Paulo Pires do Vale, José Tolentino Mendonça e João Barrento [Porta 33, 2011].



Programa

▪ Apresentação de Aby Warburg: os anos de formação como historiador de arte, a tese sobre Botticelli e o seu projecto de fundação, em Hamburgo, de uma Biblioteca das Ciências da Cultura (Kulturwissenschaftliche Bibliothek Warburg).

▪Apresentação da obra singular, inacabável e intransmissível de Warburg: a Biblioteca, o Atlas das Imagens (Bilderatlas Mnemosyne), e a investigação sobre o renascimento do paganismo antigo.

▪ O círculo Warburg em Hamburgo (uma constelação formada por figuras como Cassirer, Panofsky, Saxl e Curtius).

▪ A diferença entre a iconologia warburguiana e a iconologia de Panofsky.

▪ A concepção de uma História da Arte não "estetizante" e não formal.

▪ A noção warburguiana de uma Kulturwissenschaft ("ciência da cultura") unitária e baseada numa teoria da memória social.

▪ A memória como categoria histórico-filosófica.

▪ O conceito fundamental de Pathosformel ("fórmula de pathos") e a sua importância na teoria warburguiana da imagem.

▪ A Ninfa como Pathosformel e como revelação da "vida em movimento".

▪ Warburg, "sismógrafo" da cultura e "psico-historiador".

▪ Correspondências entre Warburg e Walter Benjamin: o Pathosformel e a "imagem dialéctica".

▪ A "vida póstuma", ou sobrevivência (Nachleben), das imagens.

▪ A imagem e o símbolo entendidos de um ponto de vista antropológico.

▪ A polaridade trans-histórica apolíneo/dionisíaco (Warburg leitor de Nietzsche e de Burckhardt): o ethos apolíneo e o pathos dionisíaco.

▪ A visão dionisíaca do Renascimento (oposta à visão canónica fixada por Winckelmann).

▪ A cultura como conquista nunca definitiva de um "espaço do pensamento" e como eterna luta entre o pensamento mágico-religioso e o lógico-matemático: a versão warburguiana da dialéctica do Iluminismo.

▪ A Biblioteca de Warburg como uma Problembibliothek (isto é, destinada a servir e resolver os problemas que se colocam ao investigador) e como percursora do hipertexto.

▪ O Atlas das Imagens (Bilderatlas Mnemosyne): uma "história de fantasmas para adultos.

▪ O Atlas como espacialização da História (o método da montagem e a sua relação com as vanguardas artísticas).

Nota: em algumas sessões do curso serão projectadas imagens, nomeadamente as que fazem parte dos painéis do Bilderatlas Mnemosyne.


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